“O céu está vazio” – Quando o cosplay encontra o teatro



Quem foi ao Cosplay in Rio Show pôde ver apresentações de alta qualidade em um palco nobre do Rio de Janeiro (o Teatro Odylo Costa Filho, na Uerj). Essa sensação de ver cosplayers brilhando num local caprichado não se resume aos grandes eventos. Afinal, a prática dessa “tribo urbana” já transcendeu os palcos, e hoje é possível ver a figura do cosplayer sendo representada também fora dos habituais concursos. O melhor exemplo para isso está em cartaz no Rio de Janeiro: o espetáculo teatral “O céu está vazio“, da Cia Casa de Jorge.

Com quase 25 anos dedicados a carreira de ator, e a mais de 7 anos como diretor teatral, Jorge Caetano comprou o pioneiro desafio de representar nos palcos uma personagem cosplayer. No entanto, Jorge adverte: “O espetáculo não é sobre cosplay ou cosplayers“.

Mantendo a parceria de sucesso com o texto da dramaturga Julia Spadaccini (é a terceira peça dos dois juntos – “Não vamos falar sobre isso agora” e “Os Estonianos” foram as anteriores), “O céu está vazio” ressalta a veia pela comédia dramática da dupla, geralmente flertando com a estética pop.

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O espetáculo

É bastante interessante ver pela primeira vez no teatro tradicional uma personagem cosplayer. Diferente de um “teatro cosplay” (prática recorrente de alguns eventos de anime), a peça “O céu está vazio” inova ao apresentar a figura do cosplayer como personagem representativo da cultura pop atual, assim como outras tribos urbanas já consolidadas.

A peça trata de conflitos familiares no turbilhão de um divórcio. Como por exemplo a traição pode mudar um lar completamente. Há diálogos muito dinâmicos entre gerações diferentes, marcando as tais tribos (entenda-se tribos como: emo, cosplayer, hippie e até mesmo taróloga). Especialmente pai x filho, o emo. A figura angelical da misteriosa Emília se põe entre os dois, tranformando aquela relação conturbada.
O diretor Jorge Caetano ressalta a intervenção artística na composição dos arquétipos, “É uma apropriação poética dessas tribos. Não há deboche“.

O ator Pedro Naine, professor de interpretação para cosplayers no Cosplay in Rio Show, gostou do que viu e parabenizou os envolvidos em “O céu está vazio” pela ousadia. “Uma peça que tem no tema a comunicação, é inteligente exatamente ao querer se comunicar com o público. Tratou o jovem de forma natural sem estereotipar as ‘tribos’ exploradas e metaforizou de maneira bela o uso de uma ‘Cosplayer onírica’“, disse após assistir ao espetáculo.

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Entrevista com Jorge Caetano

Cosplay in Rio Show: Quando viu pela primeira vez uma apresentação de cosplay?

Jorge Caetano: Foi em 2010, no evento Cool Japan (na Academia Brasileira de Letras), que fui a convite do meu amigo Fernando Molinari. Lá foi a primeira vez que entrei em contato com esse universo do cosplay – e adorei.
Nunca tinha ouvido falar em cosplay… quer dizer, não dessa forma. Já sabia que existia o movimento a partir do Star Trek, Star Wars, ou no próprio Rocky Horror Show as pessoas se vestiam conforme os personagens do filme.

Esses jovens que se vestiam de “histórias em quadrinho” já conhecia, mas não tinha identificado ainda como cosplay.

CIRS: De onde surgiu a ideia de trazer o tema para o teatro?

Jorge Caetano: A Julia queria falar na peça dos jovens de hoje, e pegar um de cada tribo. Ela, por exemplo, que teve a ideia do rapaz emo.

O título da peça sempre foi “O céu está vazio”, aí quando vi o Maurício e a Mônica Somenzari fazendo a performance dos anjos no Cool Japan, eu adorei e ali tive a ideia. Logo depois do evento liguei pra Julia, e falei “Vamos colocar a personagem como cosplayer, inclusive vamos colocá-la com as asas“.

É uma cosplay criada para a peça e é um dado ela ser a cosplayer. É claro que ela não é só cosplayer. É uma menina que fica em aberto até se ela existe ou não, se é um anjo que passou por aquela família problemática… existe essa brincadeira também.

CIRS: E como diretor teatral, reconhece as cenas interpretadas em eventos (ou melhor, concursos) de cosplay como cênicas?

Jorge Caetano: Sim. Para mim o cosplay é teatro, e os cosplayers são atores.

CIRS: Como estão sendo as reações do público nessa primeira temporada?

Jorge Caetano: Muito boa. Está sendo ótimo, as pessoas estão adorando. Há muito riso também. As pessoas riem até de coisas sérias na peça.

CIRS: Como define o estilo de “O céu está vazio”?

Jorge Caetano: Diria que é uma comédia dramática. Por enquanto só dirigi as peças da Julia. Sempre trabalhamos com o drama e a comédia ao mesmo tempo. Que é o patético das coisas do ser humano.

A Julia representa de uma forma poética e ao mesmo tempo engraçada, isso é o que mais gosto no texto dela.

CIRS: Em “O céu está vazio” há o encontro de várias linguagens audiovisuais, e recursos de som e até uma animação (estilo mangá) é projetada no palco. É uma característica dos seus trabalhos, ou uma particularidade dessa peça?

Jorge Caetano: É o meu estilo, continuar trabalhando com a linguagem pop. Sempre inspirado nos quadrinhos, artes plásticas, seriado de TV.

Antes de fazer teatro eu queria fazer animação. Mas naquela época que entrei na faculdade o cinema era muito complicado. Eu tinha que ter embora pra fazer animação… pensei até em ir para o Canadá.

Ainda tenho vontade de fazer animação, mas talvez no teatro continue mesclando animação, com vídeos, junto com a atuação.. pode assim fazer parte da minha estética, da minha assinatura.

CIRS: O que achou da sua participação como membro do júri do Cosplay in Rio Show Gamer’s Edition?

Jorge Caetano: Acho muito importante o Cosplay in Rio, e adorei participar. Se me chamarem vou lá de novo prestigiar, levar uns amigos. Todos que foram comigo se divertiram à beça.

Tudo que envolve estimular a criatividade do jovem é válido. É um grande exercício de criatividade porque o cosplay é muito rico… eles escolhem música, fazem os figurino… tudo. Daí um vai se descobrir ator, outro vai se descobrir figurinista, outro diretor. É um estímulo muito grande para os jovens.

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Teatro também é a maior diversão – e emoção. O Cosplay in Rio recomenda que os fãs de cosplay do Rio de Janeiro assistam essa semana “O céu está vazio“.

Serviço completo

Teatro Café Pequeno

Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon

Tel: (21) 2294-4480

Temporada de 1º a 24 de Junho de 2012

Sextas e Sábados às 20h30 e Domingo às 20h

Duração: 1h15min

Elenco: Paulo Giarini; Priscila Steinman; Rael Barja; Thaís Tedesco

Preço amigo: R$ 15 (avisar na bilheteria sobre convite do Jorge Caetano)

Classificação: 18 anos

Escrito por Guilherme Schneider em 30 março, 2012
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